quarta-feira, 10 de junho de 2026

NO 10 JUN 2026 |«A Ilha dos Amores»

 


SINOPSE
O passado português, como o de tantos outros países, é a história da conquista e da atrocidade, e eu diria que aquilo que de mais alto resta é a cultura, a obra imaterial que nos junta a todos, que nos faz pertencer uns aos outros. A partir de Os Lusíadas, de certa maneira, todos nós temos casa, temos esse espaço imaterial que expõe algo que nos implica de modo profundo. De nossos bravos feitos até nossos tremendos erros, o melhor passado que temos é o da poesia, o da arte, aquele que fez a sua memória na sofisticação da língua e dos talentos..
Este livro é uma maravilha inesgotável. Muito mais do que aquilo que conta. Como conta é que é a maravilha que jamais acabará.
Valter Hugo Mãe, do Prefácio. Mais.
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A Ilha dos amores

De uma os cabelos de ouro o vento leva
Correndo, e de outra as fraldas delicadas;
Acende-se o desejo, que se ceva
Nas alvas carnes súbito mostradas;
Uma de indústria cai, e já releva,
Com mostras mais macias que indignadas,
Que sobre ela, empecendo, também caia
Quem a seguiu pela arenosa praia. 

Outros, por outra parte, vão topar
Com as Deusas despidas, que se lavam:
Elas começam súbito a gritar,
Como que assalto tal não esperavam.
Umas, fingindo menos estimar
A vergonha que a força, se lançavam
Nuas por entre o mato, aos olhos dando
O que às mãos cobiçosas vão negando. 

Outra, como acudindo mais depressa
A vergonha da Deusa caçadora,
Esconde o corpo n’água; outra se apressa
Por tomar os vestidos, que tem fora.
Tal dos mancebos há, que se arremessa,
Vestido assim e calçado (que, coa mora
De se despir, há medo que ainda tarde)
A matar na água o fogo que nele arde. 

Qual cão de caçador, sagaz e ardido,
Usado a tomar na água a ave ferida,
Vendo no rosto o férreo cano erguido
Para a garcenha ou pata conhecida,
Antes que soe o estouro, mal sofrido
Salta n’água, e da presa não duvida,
Nadando vai e latindo: assim o mancebo
Remete à que não era irmã de Febo. 

Leonardo, soldado bem disposto,
Manhoso, cavaleiro e namorado,
A quem amor não dera um só desgosto,
Mas sempre fora dele maltratado,
E tinha já por firme pressuposto
Ser com amores mal afortunado,
Porém não que perdesse a esperança
De ainda poder seu fado ter mudança, 

Quis aqui sua ventura, que corria
Após Efire, exemplo de beleza,
Que mais caro que as outras dar queria
O que deu para dar-se a natureza.
Já cansado correndo lhe dizia:
“Ó formosura indigna de aspereza,
Pois desta vida te concedo a palma,
Espera um corpo de quem levas a alma.[…} 

Já não fugia a bela Ninfa, tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto já sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor. 

Ó que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã, e na sesta,
Que Vênus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.


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segunda-feira, 8 de junho de 2026

«AS COCANHA»

 



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Acrescentemos excertos do trabalho de
  João Lisboa no semanário Expresso desta semana - na Revista:


«Quando, após a Revolução Francesa de 1789, os revolucionários vitoriosos encarregaram o padre católico Henri Grégoire de estudar as línguas regionais, o seu relatório de 1794 tornar-se-ia a pedra angular das políticas que proibiam o uso de qualquer língua além do francês na vida pública, no ensino e nas escolas. Apesar disso, estas línguas continuaram a ser faladas nos bairros operários, nas fábricas, nas docas e nas zonas rurais fora de Paris.
É, numa delas, o occitano, que, desde a sua formação em 2014, as Cocanha — isto é, Caroline Dufau e Lila Fraysse — têm vindo a reinventar a música da Gasconha, do Languedoc e dos Pirenéus, a partir do trabalho sobre fragmentos do repertório tradicional. E foi a partir do contacto com os “Carmina Burana” — essa opulenta coleção de poemas e canções de Goliardos, libérrimos monges devassos medievais — que tropeçaram na primeira referência ao País de Cocanha: uma terra imaginária de liberdade e abundância, onde se prestava culto ao prazer e ao ócio, e o trabalho e a velhice eram desconhecidos. Algo como um jardim do paraíso pagão no qual, segundo se explica em “Cocanha — A História de Um País Imaginário” (de Hilário F. Júnior), “os cocanianos passam a vida a comer, beber e fazer sexo. A fundirem-se com a Natureza. Logo, a Cocanha não é uma festa qualquer, é um tipo especial, é a festa por excelência, uma orgia”.
(...)
As Cocanha, porém, em vez de o tratar como folclore de museu, injetam-lhe urgência e vitalidade. A sua música torna-se “um ato de recuperação da língua, da memória coletiva e da tradição, uma força subversiva e libertadora: a alegria coletiva como ato político”. Logo na faixa de abertura, ‘Remenanuèch’, estabelece-se a tonalidade global com uma intensidade quase punk, narrando a domesticação de um drac (dragão) metamórfico. ‘Adissiatz Palhassonaira’ conduz o diálogo vocal do duo para um território no qual cada cantora se ocupa de melodias e textos diferentes antes de convergirem numa microcoda translúcida. ‘Au Nòst’ Casalòt’ intensifica ainda mais a experiência com percussão como um metrónomo de metal corroído. ‘Jana D’Aimet’, última faixa e clímax absoluto do disco, é uma composição monstruosamente exigente em que passagens solenes irrompem em explosões vocais extáticas. Dufau e Fraysse gargalham, murmuram e uivam como se evocassem algo antigo e perigoso sob a superfície ardente da música. (...)». Se tiver acesso, na integra, aqui. Ainda de lá:





domingo, 7 de junho de 2026

NA VISITA DO PAPA A ESPANHA | os abusos na Igreja não estão a ser esquecidos ...|«FERIDA AINDA ABERTA»

 




Sobre o problema na RTP1:

Leão XIV diz que abusos na Igreja são "ferida ainda aberta"

O Papa disse este sábado que os abusos sexuais "são uma ferida ainda aberta" e que vai continuar a trabalhar pessoalmente, assim como toda a Igreja, neste problema. Uma mensagem transmitida no avião, a caminho de Madrid, onde iniciou uma visita de sete dias. Mais.

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ainda

e temos vídeo




quinta-feira, 4 de junho de 2026

AINDA PARECE MENTIRA MAS O TIAGO MIRANDA DEIXOU-NOS | o funeral foi hoje e dele fez parte uma bonita cerimónia na Basílica da Estrela onde estavam das pessoas que o Tiago gostaria que estivessem - da familia natural obviamente, tendo-se reconhecido facilmente colegas da Biblioteca Nacional e demais com quem lá se cruzou, e gente do meio artístico que soube granjear como ninguém ... , e outras presenças aconteceram porque quem conheceu o Tiago Miranda deve ter sentido essa necessidade

 



E de repente ficamos sem o TIAGO MIRANDA. Atordoados/as pela notícia enviada pelos familiares mais próximos começamos a fazer e a receber contactos numa das suas, digamos, comunidade de amigos. Era verdade, o Tiago Miranda deixou-nos. Terá morrido da que dizem ser «morte santa». Mas tão novo!, e com tanta energia! É isso, é dificil interiorizar.
Conhecemos o Tiago quando a DGARTES foi para a BIBLIOTECA NACIONAL, e logo no primeiro dia teve a iniciativa de se ir apresentar aos novos vizinhos. Para ele não havia barreiras entre organismos. O EM CADA ROSTO IGUALDADE já existia (no seu  ciclo institucional), e não passou muito tempo a inscrever-se para receber os «lembretes», à data diários, e prometeu contributos, tendo com sabedoria  percebido o conceito que se procurava desenvolver. Um exemplo:   




Bom, e assim começou o principio de uma bela amizade. No que diz respeito ao EM CADA ROSTO IGUALDADE continuou a ser leitor e a divulgá-lo até ao fim da sua vida. Por outro lado, as mensagens por e-mail que regularmente nos enviava muitas terão dado origem a posts. 
Claro, mais haveria (e não faltarão ocasiões) para se dizer sobre Tiago Miranda. Neste momento sintetizamos assim: ensinou-nos que não há apenas um «NORMAL» de vida. O dele era recheado de maneira harmoniosa pela sua ocupação profissional sendo de sublinhar o grande respeito que os «seus leitores» da BN lhe mereciam; depois havia o seu usufruto da arte - quem nos dera ter o conhecimento que ele tinha do que estava a acontecer diariamente -, e em especial o TEATRO. Não se limitava a estar presente na sala: conhecia o elenco com quem tirava fotos e tinha uma memória fabulosa sobre os espectáculos. O Tiago deixa-nos um repositório que merece atenção porque um bom espólio do ponto de vista dos «públicos». Era filho do tão cohecido constitucionalista Jorge Miranda, sem disso fazer alarde ia contudo dando-nos conta dos livros e tomadas de posição do seu pai. Sim, a família ocupava um espaço imenso na sua vida, e de vez em quando lá nos avisava que não participaria  nisto ou naquilo por ir visitar o(s) primo(s), fora de Lisboa, de transportes públicos, meio de mobilidade em que era perito. Nunca o vimos deixar de fazer o quer que fosse porque não tinha carro, mas aceitava boleias.
As imagens iniciais são a nosso ver «imagem de marca» de Tiago Miranda. Quando o viamos «engravatado» metiamo-nos sempre com ele ... Mas qualquer que fosse a fatiota havia ali uma «elegância» natural ... E uma educação «vinda de longe», mesmo quando era teimoso ...
Na vida de Tiago Miranda não terá havido momentos de tédio, antes pelo contrário: QUOTIDIANO CHEIO. TÃO CHEIO! - que, como não pudesse ser diferente, partilhava com quem se ia cruzando ... Mesmo quando de férias rumava a  Moledo.