FOTO ana baião
Por Carla Quevedo
Vidas Perfeitas
1957-2026 Realizador de “Sangue do meu Sangue”, “Fátima” e “Viver Mal/Mal Viver”, foi reconhecido e premiado, tendo sido galardoado com um Urso de Prata em Berlim
João Canijo, o cineasta do lado B português
A ideia de que Portugal tem um lado B foi introduzida pelo Presidente da República, nas cerimónias fúnebres do realizador João Canijo. À saída da Gare Marítima da Rocha Conde de Óbidos, Marcelo Rebelo de Sousa explicava que Canijo “olhava para o lado B de Portugal, para o lado B de todos nós portugueses, para o lado B dos emigrantes, dos imigrantes, dos que tinham uma vida menos feliz, mais complicada, mais lateral, para não dizer mais marginalizada”. A ideia dilui-se um pouco, mas não deixa de ser certeira.
João Canijo, realizador de cinema, foi sobretudo um realizador interessado em retratar mulheres, mostrando no cinema as suas vidas de sacrifício, de entrega sem exigir nada em troca. Santas ou vítimas são mulheres que não querem ver o pior dos homens que amam e que não se libertam dessa condição de lado B a que parecem condenadas. João Canijo morreu a 30 de janeiro, em Vila Viçosa, em casa, de ataque cardíaco.
João Altavilla Canijo nasceu a 10 de dezembro de 1957, no Porto. Estudou História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, um curso que abandonou dois anos depois do início. Era o cinema que o interessava, e por aí seguiu como se fosse uma inevitabilidade. Foi assistente de realização de Manoel de Oliveira, Wim Wenders, e outros até que em 1988 se estreia com a longa-metragem “Três Menos Eu”, com argumento escrito a meias com Paulo Tunhas e com Rita Blanco como protagonista.
Na década de 90 realiza “Filha da Mãe”, de 1991, também com Rita Blanco, atriz que acompanha quase toda a vida de João Canijo, participando da maioria dos seus filmes. Mais do que ter atores ou atrizes fetiche, João Canijo escolhe sempre as mesmas atrizes e atores, mas não por serem atrizes ou atores com personagens previamente pensadas e delineadas num argumento escrito. “Ganhar a Vida”, de 2001, foi rodado em quatro semanas e meia, depois de Rita Blanco viver um mês num bairro nos arredores de Paris. Esta espécie de experiência imersiva interessa a Canijo, para que os atores se possam adaptar a uma situação, a um contexto, quase sofrendo um efeito de contágio, como refere numa entrevista a Filipe Roque do Vale.
Admite que o seu tema de eleição é Portugal e os portugueses, mas na verdade o que parece mais importante para João Canijo é trabalhar com as pessoas de quem mais gosta: Márcia Breia, Rita Blanco, Teresa Madruga, Teresa Tavares, Ana Bustorff, Anabela Moreira, Beatriz Batarda, Cleia Almeida, e também Nuno Lopes, Rafael Morais, entre outros. Por isso não faz castings, porque conhece as atrizes e os atores com quem quer trabalhar, e daí a repetição de pessoas em situações, essas sim, diferentes. Para descobrir atrizes novas, faz castings e aí, sim, vai à procura de temperamento e garra.
“Sangue do meu Sangue”, de 2011, é talvez dos seus filmes mais aclamados, sobre mulheres que vivem no bairro Padre Cruz, em Carnide, numa zona da cidade onde as tragédias ocupam o quotidiano. O filme é premiado e chega a ser candidato a uma nomeação para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas acaba por não ser selecionado. Fica, porém, para a história como o seu filme mais conhecido. Numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro, Canijo refere famosamente: “Os pobres são muito mais interessantes do que os ricos. Se calhar porque estão mais próximos da Humanidade. Se calhar porque não têm tempo para refletir sobre a existência. Vivem, simplesmente.” E o que mais poderia interessar a um cineasta crente na autenticidade do que “viver simplesmente”? «(...)». Se tiver acesso na integra aqui.
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Lembramos a perturbação que nos causou «O Sangue do meu sangue». Não parávamos de falar do filme ... E, ainda que ficção, tudo acontecia aqui tão perto
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Detemo-nos nesta passagem do trabalho de Carla Quevedo: «Por isso não faz castings, porque conhece as atrizes e os atores com quem quer trabalhar, e daí a repetição de pessoas em situações, essas sim, diferentes. Para descobrir atrizes novas, faz castings e aí, sim, vai à procura de temperamento e garra». E talvez os nossos Governantes possam também reparar nisso - e no demais no mesmo sentido - e incorporar o ensinamento que daí vem na reformulação do existente com vista à criação de um verdadeiro SERVIÇO PÚBLICO DE CULTURA, onde uma REDE DE ORGANIZAÇOES ESTÁVEIS TÊM DE PONTUAR - como acontece noutros Países que nos dizem referência - não se estando dependente de procedimentos concursais. Não se imagina tal coisa, por exemplo, para as Escolas ou para os Hospitais ... Porque tem de ser diferente para a Cultura e as Artes? As EQUIPAS, desde logo as CRIATIVAS, precisam disso para depois nos darem a EXCELÊNCIA na Cultura ... A propósito, recorrendo à Inteligência Artificial recordemos: «Winston Churchill via a cultura e as artes como elementos fundamentais da identidade nacional e civilizacional, famosa pela suposta resposta "Então para que é que estamos a fazer esta guerra?" quando sugeriram cortar no orçamento da cultura. Defendia a cultura como base do soft power e a tradição europeia/ocidental da liberdade».