SINOPSE
István, ainda adolescente, vive com a mãe num tranquilo complexo de apartamentos na Hungria. Tímido e recém-chegado à cidade, é alheio aos rituais sociais praticados pelos colegas e rapidamente se vê isolado, sendo arrastado para uma sequência de acontecimentos que o deixam para sempre estranho aos outros, à vizinha que o seduz e depois à mãe e a si próprio. Assombrado pelo espectro de uma tragédia passada e pela apatia da modernidade, o confronto entre István e tudo aquilo que o envolve avança até que uma súbita nova tragédia volta a pôr em risco a vida que conhece.
Carne traça os contornos quase impercetíveis de um trauma não resolvido e das suas consequências, no contexto da precariedade e da violência de uma Europa cada vez mais globalizada; e fá-lo com uma lucidez incisiva, um pathos inabalável e uma humanidade surpreendente. Saiba mais.
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Sobre o livro, no semanário
Expresso , do que Pedro Mexia com o titulo Gente Arbitrária escreve
«István é um adolescente húngaro solitário, calado e com “pouca apetência” pela sexualidade. Um diagnóstico sem grande fundamento, porque avançamos umas páginas e já o rapaz está envolvido com uma vizinha mais velha do que a mãe dele. Começa por ajudar com as compras, o convívio salta etapas muito depressa, e mais uns parágrafos e a senhora está a encher o peito de óleo de bebé para actividades amatórias. Este caso estabelece um padrão que se mantém ao longo de toda a história: sem que István faça quase nada por isso, sem que diga nada interessante, as mulheres caem-lhe nos braços. Mulheres muito diferentes, que vão do óbvio ao complicado e ao insólito, colegas de trabalho, uma empregada de bar, a mulher do patrão, a caseira deste.
David Szalay (n. 1974), britânico-canadiano de origem húngara, usa invariavelmente um registo conciso, factual, com descrições directas, incluindo as sexuais, nada excitantes e nada púdicas. O sexo, neste romance, deve mais ao desejo do que ao afecto. E um gesto carinhoso ou uma menção ao “amor” são sempre tidos como despropositados ou inconvenientes.
Em “Carne”, o adágio latino “post coitum omne animal triste” peca por defeito. Há sem dúvida excitação e gozo antes e durante os encontros, mas é sexo sem “aura”, um acto mecânico, a satisfação de uma necessidade. E István, para si mesmo, faz avaliações cruas ou cruéis sobre a anatomia e a idade das mulheres. Em entrevistas, David Szalay tem insistido que “Carne” é sobre a fisicalidade, não apenas a sexualidade. O predomínio de verbos e substantivos confirma isso mesmo, e esta passagem do livro define bem o alargamento temático: “(…) toda essa fisicalidade florescente é guardada no fundo de nós como uma espécie de segredo, ao mesmo tempo que é também a superfície que se apresenta ao mundo, de modo que ficamos absurdamente expostos, sem saber se o mundo sabe tudo ou nada sobre nós, porque não há forma de saber se estas experiências que estamos a viver são universais ou exclusivas.” (...)».