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Excertos da entrevista
ao semanário Expresso
Nasceu perto da primavera, está entre os maiores artistas portugueses de sempre. É uma pintora do sofrimento e da natureza, do heroísmo e da maldade, do mundo rural e da História. Das mulheres, dos bichos, da beleza. Vive ligada a Trás-os-Montes e ao mundo, a ferver de ideias
POR João Pacheco (TEXTO) Jornalista e José Fonseca Fernandes (FOTOGRAFIAS)
Entre as aldeias de Vieiro e de Freixiel há menos de dez quilómetros de caminho, por terras transmontanas. Um dia, o rapaz encostou o cavalo à varanda da casa e a rapariga saltou. Cavalgaram numa fuga rumo à capela de Freixiel e ali se casaram, contra a vontade familiar. Foram avós juntos e em 1948 nasceu uma neta que viria a ser pintora. “A grande personagem da minha vida foi o avô Pinto”, diz agora Graça Morais. A neta do avô Pinto vive entre Lisboa e Trás-os-Montes, rodeada de fragas, vinha e olivais. Já viveu no Porto, em Guimarães, em Paris e em Bragança, onde o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais mostra até 17 de outubro a exposição “Anjos do Apocalipse”. Esta conversa durou horas e aconteceu no Palácio Anjos, em Algés, onde a pintora tem uma grande exposição até 16 de agosto. Com espaço para uma homenagem aos presos políticos da prisão de Caxias. Com caras marcadas por isto de vivermos. Com morte e espanto. O mesmo espanto com que contará como precisa de assistir ao arranque das batatas, em Trás-os-Montes. “A rama é bonita e depois saem dez, 20 batatas pequenas e grandes, com raízes e terra. Vou pintar e desenhar este mistério da criação.” (...).
Nos seus primeiros anos como pintora, ser mulher fez diferença?
Começou logo por fazer diferença quando saí com uma nota alta e não fui convidada para ser [professora] assistente nas Belas Artes, no Porto. Alguns homens com notas mais baixas foram convidados, mas a escola do Porto não tinha mulheres professoras. Tinha metido na cabeça que queria era pintar, não sofri com essa exclusão.
Foi dar aulas onde?
Fui dar aulas primeiro para o Soares dos Reis, nas Artes Decorativas. Tinha uma nota alta e fui colocada. Não gostei nada, não estava preparada para dar aulas a pessoas em cursos profissionais. As Belas Artes não nos preparavam para dar aulas, preparavam-nos para ser artistas e sobretudo artistas medíocres. Isto dito é um bocado chato, mas é assim. Em Belas Artes, grandes pintores foram meus professores. Os melhores artistas davam aulas na Escola, tínhamos essa vantagem. O que não quer dizer que fossem os melhores professores. Faziam um esforço, mas só depois de viajar muito é que me apercebi das minhas falhas. A minha ignorância era imensa. Quando ia a Paris, quando ia a Londres, pensava: “Eu já devia saber isto tudo.” Ainda hoje, quando vou a exposições e vejo filmes sobre artistas, penso: “Mas como é que só agora com 70 anos estou a saber estas coisas?” As escolas deveriam ser mais exigentes, mostrar mais coisas. (...)
A matança do porco é muito importante na sua pintura.
É, porque reunia a família. As fotografias que fiz já são da altura em que a matança do porco começou a ser proibida. Era um encontro da família, em que todos eram úteis. Nós matávamos mais do que um porco. E na altura havia muita pobreza. Não digo miséria, porque as pessoas todas tinham uma casa, nem que fosse humilde. Agora nas aldeias é uma diferença enorme, não vê ninguém a passar mal. Os velhos vão para os lares, são bem tratados, mas estão isolados. Custa muito ver as mulheres que pintei e que estão ali naquelas fotografias. Só uma está viva. A maior parte foi colocada em lares em Vila Flor ou perto, completamente sozinhas. A família, a maior parte dela, não as vai ver. (...)».
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«8 páginas merecidas.
Graça Morais não faz uma pintura amável, 'delicada', decorativa, fácil, lúdica ou bonitinha. Mas tem uma imensa multidão de admiradores e uma grande projecção mediática que não passa pela "crítica especializada". Muita da sua pintura é crua, invulgar, estranha mesmo, desafiadora, singular e mais idiossincrática que alinhada por estilos formais vulgarizados, ancorada em realidades locais distantes, vindas de profundezas culturais de Trás-os-Montes sem ser folclórica, e sem deixar de ser uma produção culta com marcantes afinidades internacionais.
As suas entrevistas ajudam a abrir caminhos para melhor se entenderem os seus temas e as suas figuras, por quem é distante das suas raízes, e as suas preocupações face ao estado do mundo, mas para lá das descrições e interpretações tudo se joga na intensidade visível da pintura e dos seus materiais, na veemência sensorial dos retratos, humanos e animais, na força das imagens que estabelecem cumplicidades entre personagens e espectadores.
João Pacheco faz uma boa entrevista na presente edição da Revista (31 de Julho) e já tinha apresentado na Revista de 4 de Abril - "A beleza da natureza, o horror da guerra, a memória da mãe" - a antologia que se vê ainda no Palácio Anjos, ate 13 de setembro.
A chamada crítica vive de patrocinar casos menores e arreda-se, como acontece no Público, e os museus mais institucionais nunca lhe abriram as portas. Face à arte que "reflecte" sobre ideias de arte e repete as receitas secas de estilos colectivos com décadas de envelhecimento, o mundo da Graça Morais (mulher e pintora de figuras) é uma diferença violenta. Demasiado difícil? demasiado admirada? demasiado popular? demasiado grande? ».