sábado, 1 de agosto de 2026

COMEÇAR AGOSTO COM GRAÇA MORAIS

 




*
*   *
Excertos da entrevista
ao semanário Expresso


Nasceu perto da primavera, está entre os maiores artistas portugueses de sempre. É uma pintora do sofrimento e da natureza, do heroísmo e da maldade, do mundo rural e da História. Das mulheres, dos bichos, da beleza. Vive ligada a Trás-os-Montes e ao mundo, a ferver de ideias

POR João Pacheco (TEXTO) Jornalista e José Fonseca Fernandes (FOTOGRAFIAS)

Entre as aldeias de Vieiro e de Freixiel há menos de dez quilómetros de caminho, por terras transmontanas. Um dia, o rapaz encostou o cavalo à varanda da casa e a rapariga saltou. Cavalgaram numa fuga rumo à capela de Freixiel e ali se casaram, contra a vontade familiar. Foram avós juntos e em 1948 nasceu uma neta que viria a ser pintora. “A grande personagem da minha vida foi o avô Pinto”, diz agora Graça Morais. A neta do avô Pinto vive entre Lisboa e Trás-os-Montes, rodeada de fragas, vinha e olivais. Já viveu no Porto, em Guimarães, em Paris e em Bragança, onde o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais mostra até 17 de outubro a exposição “Anjos do Apocalipse”. Esta conversa durou horas e aconteceu no Palácio Anjos, em Algés, onde a pintora tem uma grande exposição até 16 de agosto. Com espaço para uma homenagem aos presos políticos da prisão de Caxias. Com caras marcadas por isto de vivermos. Com morte e espanto. O mesmo espanto com que contará como precisa de assistir ao arranque das batatas, em Trás-os-Montes. “A rama é bonita e depois saem dez, 20 batatas pequenas e grandes, com raízes e terra. Vou pintar e desenhar este mistério da criação.” (...).

Nos seus primeiros anos como pintora, ser mulher fez diferença?

Começou logo por fazer diferença quando saí com uma nota alta e não fui convidada para ser [professora] assistente nas Belas Artes, no Porto. Alguns homens com notas mais baixas foram convidados, mas a escola do Porto não tinha mulheres professoras. Tinha metido na cabeça que queria era pintar, não sofri com essa exclusão. 

Foi dar aulas onde?

Fui dar aulas primeiro para o Soares dos Reis, nas Artes Decorativas. Tinha uma nota alta e fui colocada. Não gostei nada, não estava preparada para dar aulas a pessoas em cursos profissionais. As Belas Artes não nos preparavam para dar aulas, preparavam-nos para ser artistas e sobretudo artistas medíocres. Isto dito é um bocado chato, mas é assim. Em Belas Artes, grandes pintores foram meus professores. Os melhores artistas davam aulas na Escola, tínhamos essa vantagem. O que não quer dizer que fossem os melhores professores. Faziam um esforço, mas só depois de viajar muito é que me apercebi das minhas falhas. A minha ignorância era imensa. Quando ia a Paris, quando ia a Londres, pensava: “Eu já devia saber isto tudo.” Ainda hoje, quando vou a exposições e vejo filmes sobre artistas, penso: “Mas como é que só agora com 70 anos estou a saber estas coisas?” As escolas deveriam ser mais exigentes, mostrar mais coisas. (...)

A matança do porco é muito importante na sua pintura.

É, porque reunia a família. As fotografias que fiz já são da altura em que a matança do porco começou a ser proibida. Era um encontro da família, em que todos eram úteis. Nós matávamos mais do que um porco. E na altura havia muita pobreza. Não digo miséria, porque as pessoas todas tinham uma casa, nem que fosse humilde. Agora nas aldeias é uma diferença enorme, não vê ninguém a passar mal. Os velhos vão para os lares, são bem tratados, mas estão isolados. Custa muito ver as mulheres que pintei e que estão ali naquelas fotografias. Só uma está viva. A maior parte foi colocada em lares em Vila Flor ou perto, completamente sozinhas. A família, a maior parte dela, não as vai ver. (...)».

*
*   *

«8 páginas merecidas.
Graça Morais não faz uma pintura amável, 'delicada', decorativa, fácil, lúdica ou bonitinha. Mas tem uma imensa multidão de admiradores e uma grande projecção mediática que não passa pela "crítica especializada". Muita da sua pintura é crua, invulgar, estranha mesmo, desafiadora, singular e mais idiossincrática que alinhada por estilos formais vulgarizados, ancorada em realidades locais distantes, vindas de profundezas culturais de Trás-os-Montes sem ser folclórica, e sem deixar de ser uma produção culta com marcantes afinidades internacionais.
As suas entrevistas ajudam a abrir caminhos para melhor se entenderem os seus temas e as suas figuras, por quem é distante das suas raízes, e as suas preocupações face ao estado do mundo, mas para lá das descrições e interpretações tudo se joga na intensidade visível da pintura e dos seus materiais, na veemência sensorial dos retratos, humanos e animais, na força das imagens que estabelecem cumplicidades entre personagens e espectadores.
João Pacheco faz uma boa entrevista na presente edição da Revista (31 de Julho) e já tinha apresentado na Revista de 4 de Abril - "A beleza da natureza, o horror da guerra, a memória da mãe" - a antologia que se vê ainda no Palácio Anjos, ate 13 de setembro.
A chamada crítica vive de patrocinar casos menores e arreda-se, como acontece no Público, e os museus mais institucionais nunca lhe abriram as portas. Face à arte que "reflecte" sobre ideias de arte e repete as receitas secas de estilos colectivos com décadas de envelhecimento, o mundo da Graça Morais (mulher e pintora de figuras) é uma diferença violenta. Demasiado difícil? demasiado admirada? demasiado popular? demasiado grande? ».



sexta-feira, 31 de julho de 2026

NÓS SÓ QUERÍAMOS LEMBRAR | «O prazo para utilização do Cheque-Livro termina a 31 de agosto de 2026» | MAS DEPOIS ANDÁMOS A DEAMBULAR POR UM CONJUNTO DE SITES A DIZER O MESMO COM IMAGENS DIFERENTES E CHEGÁMOS AO «BONO CULTURAL DE ESPANHA»

 

Veja no jornal Público


​Prazo de utilização até 31 de agosto.

 «Destinado a jovens residentes em Portugal nascidos em 2007 ou 2008, o Programa Cheque-Livro permite a atribuição de um apoio para a aquisição de livros em livrarias aderentes, promovendo simultaneamente hábitos de leitura e o contacto direto com o comércio livreiro.

A escolha das obras é livre, estando apenas excluídos livros escolares, manuais de apoio ao estudo, dicionários e publicações não editadas em Portugal. O processo é simples: o jovem dirige-se a uma livraria aderente, escolhe o livro pretendido e valida o ISBN com o livreiro.

O prazo para utilização do Cheque-Livro termina a 31 de agosto de 2026, sendo este o período limite para a sua utilização.

O Programa Cheque-Livro é uma iniciativa do Ministério da Cultura, Juventude e Desporto, através da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), do Gabinete de Estratégia, Planeamento e Avaliação Culturais (GEPAC) e do Fundo de Fomento Cultural (FFC). Veja no site da DGLAB

 











*
*   *
Em Espanha

Na home page do Ministerio da Cultura

que nos leva a

«Los jóvenes nacidos en 2008 pueden solicitar el Bono Cultural Joven 2026 a partir de hoy

22/06/2026

  • - A partir de este año el Bono Cultural Joven podrá ser utilizado también para la adquisición de instrumentos musicales, materiales para la creación artística o cursos culturales
  • - Las personas que este año hayan cumplido o cumplan 18 años pueden solicitarlo en la web https://bonoculturajoven.gob.es/ desde hoy hasta el 31 de octubre
  • - El Ministerio de Cultura colaborará con entidades del tercer sector para que el Bono sea más accesible y llegue a los sectores de población más vulnerables
  • - Desde la fecha de concesión, se podrá hacer uso del Bono Cultural Joven durante todo un año en las entidades adheridas al programa, cerca de 4.000 en toda España». Leia na integra

  • E a não perder o site oficial do Bono Cultural Jovem
  • neste endereço

  • *
  • *   *
  • Muitas notas poderiamos fazer face aos recortes acima
  • mas deixamos isso aos nossos leitores. Apenas reforçamos: olá! JOVEM, escolha um livro, e aproveite o «cheque» se ainda não o fez. Se ADULTOS, também podemos sugerir ..., quiçá acompanhar numa ida a LIVRARIA ... Belo Programa, diríamos nós.




EXPERIÈNCIA DIGITAL | «Frida Orupabo _ Cloud of Confusion»

 


«Na sua primeira exposição individual em Portugal, Frida Orupabo revisita o vasto arquivo de imagens que tem vindo a reunir na sua conta de Instagram, material composto por tensões entre intimidade e violência, e instaura um espaço crítico e emocional. A exposição inspira-se no fluxo digital e enfatiza o «abismo» das imagens — a sua estranheza, a sua reverberação dispersa.
Em diálogo com a arquitetura do MAC/CCB, a exposição desenha um percurso linear de oito momentos, ecoando o deslizamento contínuo entre ecrãs que caracteriza a nossa experiência digital. O título evoca a nuvem digital onde armazenamos imagens e dados, e também a névoa de informação, memória e esquecimento que aquela produz.
Curadoria Marta Mestre». Saiba mais 
 
 *
*   *
No semanário Expresso, sobre a Exposição, 
de Celso Martins: 

«Mais do que oferecer imagens memoráveis ou persistentes, o sistema contemporâneo de difusão visual gera fluxos, largos movimentos de disseminação. Como podem os artistas navegar nesse mar de informação sem se dissolverem nele até à irrelevância?
As redes sociais são, claro, um palco importante neste debate. Que fazer com elas? Ignorá-las como quem enterra a cabeça na areia? Ou ousar entrar num jogo comunicacional onde o sentido e o impacto do que se publica pouco se controla?

Muitos artistas aceitam a segunda opção, mesmo cientes do tamanho do desafio. Frida Orupabo, artista negra de origem nigeriana nascida em 1986 em Sarpsborg, na Noruega, não precisa que lhe expliquem o que é a globalização, tão pouco a atração hipnótica das redes e o seu glamour instantâneo.

Antes de se dedicar à arte, teve formação académica em Sociologia, tendo trabalhado no campo da assistência social com profissionais do sexo. A exclusão não é para ela uma abstração discursiva para uso académico. Em 2013, criou uma conta no Instagram (@nemiepeba), que funciona como um grande arquivo em progresso de imagens e filmes.

Mas ela sabe que existe um mundo um pouco abaixo da atmosfera etérea das redes e também sabe que ele é mais sombrio do que parece, e que a violência (física, sexual, laboral, cívica) é a sua condição mais permanente. (...)». Se tiver acesso, na integra aqui.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

NO JEWISH MUSEUM | «Modernity and Opulence: Women of the Wiener Werkstätte»

 


«Modernity and Opulence: Women of the Wiener Werkstätte sheds new light on the role that Jewish women played as artists, designers, patrons, and tastemakers shaping modernist aesthetics in early 20th-century Vienna and beyond».



segunda-feira, 27 de julho de 2026

NA RTP2 | PRÓXIMO 30 JULHO | o filme «damas» - As enfermeiras da Cruz Vermelha na primeira guerra mundial | ÀS 22:50

 




As enfermeiras da Cruz Vermelha na primeira guerra mundial

«Durante a primeira guerra mundial a luta também foi das mulheres. Um grupo de senhoras da alta sociedade ofereceu-se para ir para França como enfermeiras da Cruz Vermelha, também conhecidas como damas enfermeiras. Além do auxílio aos feridos e doentes, foram com uma missão: construir um hospital.
Entre contratempos e obstáculos, e perante a resistência crescente da República, as Damas conseguiram que as portas do hospital se abrissem precisamente a 9 de abril de 1918, no dia em que começou a Batalha de La Lys». Saiba mais.


domingo, 26 de julho de 2026

«A partir de pouco mais de meia dúzia de personagens, Catarina mostra-nos que os loucos do Miguel Bombarda podiam ser os excêntricos ou esquizofrénicos de hoje, que vivem livres, com medicação. Podia ser eu»

 


SINOPSE
Uma caixa de objectos abandonados no Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda contém as pistas para resgatar do esquecimento a vida de doentes que ao longo de décadas ali permaneceram confinados.
Coisas de Loucos teve origem na descoberta acidental de uma caixa de objectos de antigos doentes do primeiro hospital psiquiátrico português, o Miguel Bombarda.
Catarina Gomes inicia então uma série de investigações para encontrar os «loucos» a quem pertenciam esses objectos abandonados. Nascidos entre o final do século xix e o começo do século xx, muitos foram admitidos em «Rilhafoles», nome original do Bombarda. Os psicofármacos e a terapia ocupacional não tinham ainda sido inventados, e por isso o único «tratamento» que receberam foi o do isolamento.
Mas antes de serem forçadas ao confinamento estas pessoas tiveram família, amores, trabalho, tiveram planos de futuro. São essas suas vidas que Catarina aqui resgata do esquecimento. Saiba mais.

*
*   *
Chegámos ao livro acima através da crónica de Isabela Figueiredo que acabámos de ler - não perdemos semanalmente. Excertos: 
«Quem me conhece bem sabe que eu nasci com um íman que atrai malucos de toda a espécie. Para me pedirem dinheiro, para conversarem comigo, para que confirme que têm razão relativamente a uma ação que pretendem fazer, mas que lhes é proibida. Talvez nos farejemos. Se há um maluco a cruzar-se no meu caminho, certo é que há de vir ter comigo.
(...) Atraída pelo mundo dos malucos, acabei de ler uma obra de Catarina Gomes, intitulada “Coisas de Loucos. O Que Eles Deixaram no Manicómio”. Tenho ido para a praia com este livro atrás. Atrai olhares, posso garantir. Devem dizer: “Está ali uma mulher sozinha a ler um livro sobre loucos, de fato de banho rosa espampanante.” Uau! Os seres humanos vivem no interior de jaulas de que não se dão conta. Nasceram já dentro. Extraíram-lhes o diamante da loucura e eu sinto compaixão por eles.
O livro é de Catarina Gomes. Arrisquem lê-lo na praia com fatos de banho cintilantes. Foi interessante descobrir as personagens internadas no Hospital Miguel Bombarda que hoje emocionam Catarina Gomes. Ao visitar o local teve acesso a uma caixa com objetos insignificantes apreendidos aos pacientes, no processo de internamento. Chaves, carimbos, desenhos, pentes, ponteiros de relógio, cartas, papéis com palavras escritas no seu verso, documentos diversos, inclusive um bilhete de identidade cosido à mão. É por ele que Catarina começa. Revela-nos tudo o que descobriu sobre uma modista que enviuvou alguns meses após o casamento, nos anos 20. Perder o marido, que foi morrendo aos poucos, dentro de casa, com uma infeção que o comeu, deixou a modista sem meios de sobrevivência. Não havia dinheiros para médicos e, mesmo que houvesse, poderia não haver cura. Muitas mulheres na mendicidade e sem-abrigo eram resultado de estados de viuvez. (...) A  partir de pouco mais de meia dúzia de personagens, Catarina mostra-nos que os loucos do Miguel Bombarda podiam ser os excêntricos ou esquizofrénicos de hoje, que vivem livres, com medicação. Podia ser eu. Escrevo coisas duras e violentas. Sem orgulho algum, eu seria um belo exemplar de mulher a lobotomizar durante o século XX, até que o 25 de Abril nos libertou. Uma mulher livre, independente, que praticamente só fala com animais? Já me teriam dado caminho. Talvez não fosse impossível descobrir em mim um belo diamante da loucura.».


sábado, 25 de julho de 2026

«NADA»

 


Sobre a Exposição veja no blogue
 de Alexandre Pomar - 2026, Isabel Sabino,

Começa assim: 
«1. (dia 18)
Apetece dizer que é a exposição de uma jovem artista, embora se trate de uma professora catedrática aposentada da FBAUL, com uma já longa carreira que se pode considerar discreta, por se fazer fora das habituais e totalitárias escolhas institucionais.
Poderia falar de "imaturidade" no sentido que Witold Gombrowicz elogiava no seu romance "Ferdydurke", mas é mais fácil falar da frescura, agilidade e experiência/experimentação, ou vitalidade como que espontânea desta pintura nova com que a Isabel Sabino prossegue os seus caminhos. O contrário de uma obra estabilizada em processos, onde há invenção e surpresa tanto na maneira de fazer pintura como nas pistas descritivas e ficcionais que se oferecem.
A exposição intitula-se "Nada", o que inclui vários sentidos que se descobrem em andamento e em especial numa sala negra onde a luz é intermitente e os desenhos se apagam e se lêem numa escrita luminescente.
Há por aqui rios e mares de pintura por onde nadamos. Há paisagens, onde a natureza nos atrai pelos seus caminhos e que por vezes parece convulsiva, ameaçadora. De início não considerei que ao pintar o estado do mundo aqui se inclui também a reflexão sobre o seu fim anunciado, a representação da catástrofe possível. (...)». Contiune .

De lá também