segunda-feira, 22 de junho de 2026

«CARNE» | de David Szalay | VENCEDOR BOOKER PRIZE 2025

 



SINOPSE
István, ainda adolescente, vive com a mãe num tranquilo complexo de apartamentos na Hungria. Tímido e recém-chegado à cidade, é alheio aos rituais sociais praticados pelos colegas e rapidamente se vê isolado, sendo arrastado para uma sequência de acontecimentos que o deixam para sempre estranho aos outros, à vizinha que o seduz e depois à mãe e a si próprio. Assombrado pelo espectro de uma tragédia passada e pela apatia da modernidade, o confronto entre István e tudo aquilo que o envolve avança até que uma súbita nova tragédia volta a pôr em risco a vida que conhece.
Carne traça os contornos quase impercetíveis de um trauma não resolvido e das suas consequências, no contexto da precariedade e da violência de uma Europa cada vez mais globalizada; e fá-lo com uma lucidez incisiva, um pathos inabalável e uma humanidade surpreendente. Saiba mais.

*
*   *
Sobre o livro, no semanário
Expresso , do que Pedro Mexia  com o titulo Gente Arbitrária escreve

«István é um adolescente húngaro solitário, calado e com “pouca apetência” pela sexualidade. Um diagnóstico sem grande fundamento, porque avançamos umas páginas e já o rapaz está envolvido com uma vizinha mais velha do que a mãe dele. Começa por ajudar com as compras, o convívio salta etapas muito depressa, e mais uns parágrafos e a senhora está a encher o peito de óleo de bebé para actividades amatórias. Este caso estabelece um padrão que se mantém ao longo de toda a história: sem que István faça quase nada por isso, sem que diga nada interessante, as mulheres caem-lhe nos braços. Mulheres muito diferentes, que vão do óbvio ao complicado e ao insólito, colegas de trabalho, uma empregada de bar, a mulher do patrão, a caseira deste.
David Szalay (n. 1974), britânico-canadiano de origem húngara, usa invariavelmente um registo conciso, factual, com descrições directas, incluindo as sexuais, nada excitantes e nada púdicas. O sexo, neste romance, deve mais ao desejo do que ao afecto. E um gesto carinhoso ou uma menção ao “amor” são sempre tidos como despropositados ou inconvenientes.
Em “Carne”, o adágio latino “post coitum omne animal triste” peca por defeito. Há sem dúvida excitação e gozo antes e durante os encontros, mas é sexo sem “aura”, um acto mecânico, a satisfação de uma necessidade. E István, para si mesmo, faz avaliações cruas ou cruéis sobre a anatomia e a idade das mulheres. Em entrevistas, David Szalay tem insistido que “Carne” é sobre a fisicalidade, não apenas a sexualidade. O predomínio de verbos e substantivos confirma isso mesmo, e esta passagem do livro define bem o alargamento temático: “(…) toda essa fisicalidade florescente é guardada no fundo de nós como uma espécie de segredo, ao mesmo tempo que é também a superfície que se apresenta ao mundo, de modo que ficamos absurdamente expostos, sem saber se o mundo sabe tudo ou nada sobre nós, porque não há forma de saber se estas experiências que estamos a viver são universais ou exclusivas.” (...)». 


domingo, 21 de junho de 2026

OLHAMOS PARA O QUE SE ESTÁ A PASSAR COM OS SUBSÍDIOS DE MÉRITO CULTURAL ATRAVÉS DO FUNDO DE FOMENTO CULTURAL E HÁ QUEM INTELIGENTEMENTE E COM TALENTO NOS LEVE AO PASSADO PARA MELHOR REFLETIRMOS | «Este País te mata lentamente» diz Sophia no «Camões e a tença» | NÃO PODEMOS PERMITIR QUE SE CONTINUE A MATAR LENTAMENTE NESTE FRÁGIL SETOR DA CULTURA E DAS ARTES ...

 

Tirado daqui, onde também
 podemos ouvir no «belo dizer»
de João Reis. 

*
*   *

Comecemos por partilhar que temos alguma (muita) dificuldade em falar sobre o que se está a passar em torno dos Subsídios de Mérito Cultural através do Fundo de Fomento Cultural. Sentimos pudor. Medo de não conseguirmos a dignidade que as pessoas envolvidas nos merecem. Só elas deviam indicar até onde se pode ir. Contudo,  é matéria sobre a qual dispomos de algum conhecimento que nos permite dizer que o que se está a passar é abjeto  - sentimos obrigação de não temer as palavras. 
Em particular, sendo este um blogue em cujo conceito se acredita na força da cultura e da arte em defesa das igualdades não podiamos passar ao lado do que está a acontecer com autores e artistas a quem cortaram meios de sobrevivência ... É o que nos dizem na praça pública, e se nos incomoda ler, mais nos incomodaria se a comunicação social não nos pusesse a par do que está a passar: no século XXI !
Para sabermos mais, talvez recorrer a este post do blogue  Elitário Para Todos:




«Ponto de Virada: Violência Online, Impactos, Manifestações e Reparação na Era da IA»

 



E da ONU Mulheres Brasil: 

«Nova York, 28 de abril de 2026. Às vésperas do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, em 3 de maio, a ONU Mulheres, TheNerve e parceiros lançam um novo relatório que destaca as formas crescentes e cada vez mais sofisticadas de violência online enfrentadas por mulheres na vida pública, especialmente mulheres jornalistas e profissionais de mídia.
De acordo com o relatório “Ponto de Virada: Violência Online, Impactos, Manifestações e Reparação na Era da IA”, 12% das defensoras de direitos humanos, ativistas, jornalistas, trabalhadoras da mídia e outras comunicadoras públicas relatam ter vivenciado o compartilhamento não consensual de imagens pessoais, incluindo conteúdo íntimo ou sexual. 6% dizem ter sido vítimas de “deepfakes”, enquanto quase uma em cada três recebeu investidas sexuais não solicitadas por meio de mensagens digitais.
O relatório revela que esse tipo de abuso é frequentemente deliberado e coordenado, desenhado para silenciar mulheres na vida pública ao mesmo tempo em que mina sua credibilidade profissional e sua reputação pessoal. Essa estratégia já está produzindo efeitos: 41% de todas as mulheres respondentes disseram que se autocensuram nas redes sociais para evitar abusos, enquanto 19% relataram autocensura em seu trabalho profissional como resultado da violência online. Entre mulheres jornalistas e trabalhadoras da mídia, o cenário é ainda mais preocupante: 45% desse grupo relatou autocensura nas redes sociais em 2025, um aumento de 50% desde 2020, e quase 22% relataram autocensura em seu trabalho.
Outras tendências relevantes apontam para um aumento de ações legais e de denúncias às forças de segurança entre mulheres jornalistas e trabalhadoras da mídia. Em 2025, elas tinham o dobro de probabilidade de denunciar incidentes de violência online à polícia (22%) em comparação com 2020, quando esse índice era de 11%. Quase 14% agora estão tomando medidas legais contra perpetradores, facilitadores ou seus empregadores, acima dos 8% registrados em 2020, refletindo maior conscientização e uma pressão mais forte por responsabilização.
Essa violência tem um impacto grave na saúde e no bem-estar das mulheres. O relatório revela que quase um quarto (24,7%) das mulheres jornalistas e trabalhadoras da mídia entrevistadas foi diagnosticado com ansiedade ou depressão relacionada à violência online que vivenciaram, e quase 13% relataram diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
“A IA está tornando o abuso mais fácil e mais danoso, e isso está alimentando a erosão de direitos duramente conquistados em um contexto marcado pelo retrocesso democrático e pela misoginia em rede. Nossa responsabilidade é garantir que sistemas, leis e plataformas respondam com a urgência que essa crise exige”, afirmou Kalliopi Mingerou, chefe da Seção de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres da ONU Mulheres.
Persistem lacunas significativas na proteção legal contra a violência online. Como destacou o Banco Mundial no ano passado, menos de 40% dos países têm leis em vigor para proteger mulheres contra assédio virtual ou perseguição virtual. Como resultado, 44% das mulheres e meninas do mundo, aproximadamente 1,8 bilhão de pessoas, continuam sem acesso à proteção legal.
O relatório “Tipping point: Online violence impacts, manifestations, and redress in the AI age” está disponível em Inglês e integra uma série mais ampla que examina como a violência online limita a participação das mulheres na vida pública na era da IA. O estudo foi encomendado pela ONU Mulheres no âmbito do Programa ACT para Acabar com a Violência contra as Mulheres, financiado pela União Europeia. Foi produzido em parceria com pesquisadoras e pesquisadores da Iniciativa de Integridade da Informação da TheNerve e da City St George’s, University of London, em colaboração com o International Center for Journalists e a UNESCO. As autoras e autores do relatório são: Dr. Julie Posetti, Kaylee Williams, Dr. Lea Hellmueller, Dr. Pauline Renaud, Nabeelah Shabbir e Dr. Nermine Aboulez».


sexta-feira, 19 de junho de 2026

«Segurar, Dar, Receber»

 



Ainda

«(...)Segurar, dar, receber revela uma reciprocidade que ecoa tanto o conceito de ajuda mútua de Piotr Kropotkin como a visão de Lynn Margulis da simbiose como força motriz da evolução e da criatividade.

Vivemos num mundo em que as disrupções económicas são celebradas como «destruição criativa» e em que a palavra «mútuo» surge mais frequentemente associada ao espectro da destruição nuclear mútua do que à ajuda mútua. É um mundo marcado por desigualdades extremas e por uma inquietante deriva para o autoritarismo de direita. Neste sentido, Segurar, dar, receber pretende ser um gesto discreto, mas firme, de resistência — um manifesto em favor da horizontalidade, da ajuda mútua, da simbiose e da reciprocidade.

A arte e a arquitetura raramente transformam diretamente o mundo, mas fazem-no de modo indireto, ao transformar a forma como o vemos e como nele vivemos.

O Anozero’26 destaca práticas artísticas e arquitetónicas que esbatem as fronteiras entre disciplinas e apresenta projetos que — implícita ou explicitamente — dão, retribuem, transmitem adiante e permanecem recetivos às pessoas e às interpretações. Uma arte hospitaleira, uma arquitetura generosa.

Se a arte, a arquitetura, artistas e arquitetos não podem mudar o mundo — apenas a forma como o experienciamos —, então o nosso papel, enquanto curadores, é enquadrar essas visões: tornar visível aquilo que a arte e a arquitetura reunidas neste evento contêm, guardam e têm para oferecer a quem o visita e, talvez, influenciar a forma como cada pessoa compreende o mundo». Leia na integra.


Na brochura disponível aqui


quinta-feira, 18 de junho de 2026

«Uma edição inédita de ‘As Mil e Uma Noites’ reconhece a possível autoria feminina da obra»





« Sob o título "Mulheres Anônimas", a ONU Mulheres Espanha apresentou uma nova edição do clássico universal "As Mil e Uma Noites", fruto de uma pesquisa que busca resgatar as vozes de mulheres invisibilizadas pela história e suscitar reflexões sobre igualdade, cultura e representatividade.

Essa pesquisa, conduzida ao longo de cinco meses por uma equipe multidisciplinar de especialistas, incluindo especialistas em psicolinguística, foi viabilizada graças à Dentsu Creative. A análise conclui que há quase 82% de probabilidade de que os primeiros textos de "As Mil e Uma Noites" tenham sido escritos por uma mulher. Este projeto visa promover a igualdade de gênero na esfera cultural e destacar as contribuições históricas de mulheres que foram invisibilizadas ou relegadas ao longo da história».

*
* *

Sobre a matéria, veja também‘Anónimo’ se convierte en ‘Anónima’: ONU Mujeres reivindica la autoría femenina de ‘Las mil y una noches’»