terça-feira, 4 de maio de 2021

JULIÃO SARMENTO | morreu o artista visual que tinha nas mulheres fonte inesgotável de inspiração ...

 


(...)A carreira artística inicia-se em todo o seu fulgor na década de 1970, marcada por influências culturais anglo-saxónicas e onde utiliza linguagens diversificadas: pinturas, filmes, colagens de materiais heteróclitos, montagens fotográficas ou encenações de textos onde coloca em jogo vários elementos, desde a apropriação de imagens e citações literárias à fragmentação das formas, pondo-os ao serviço de um discurso plástico marcado pelo desejo e a pulsão erótica.

"Há um filme muito giro do Truffaut chamado 'L'homme qui aimait les femmes' e eu sou um pouco como ele: morreu atropelado por um Porsche quando ia a olhar para as pernas de uma mulher. Há piores maneiras de morrer", comentou em entrevista ao Jornal I. Era com alegorias destas que demonstrava o amor pelas mulheres, fonte inesgotável de inspiração.

Dizia: "Apaixono-me a toda a hora e a todo o instante. Faz parte da vida". E por isso mesmo casou três vezes. Assim na arte como na vida " O desequilíbrio é o que me interessa. Interessa-me muito mais o desequilíbrio do que as coisas estáveis. As coisas muito estáveis e certinhas não levam a lado nenhum a não ser a uma pasmaceira de café com leite. Interessam-me muito mais as coisas que estejam à beira do precipício", comentou numa entrevista ao programa "Fala com ela".

Na década de 1980, Julião Sarmento acompanha a mudança de paradigma, o que no seu caso determina o "regresso à pintura" figurativa e expressionista. É o período das "Pinturas brancas", em que predomina o desenho a grafite sobre fundo branco, onde os corpos quase se desmaterializam, reduzindo-se a linhas de contorno, e onde o vemos centrar-se na representação do feminino. A sua pintura torna-se num recetáculo de imagens e modos de pintar heterogéneos . O efeito produzido por essa sobreposição remete sobretudo para dois universos, o da literatura e o do cinema, eixos estruturantes da sua obra. Nesta época participa em duas edições sucessivas da Documenta de Kassel, que tiveram impacto na sua carreira internacional. (...)». Leia na integra.

_________________

Veja sobre «as mulheres» em entrevista a Anabela Mota Ribeiro. De lá:


«(…)Implica conhecer o contorno da verdade, o contorno das pessoas que vemos?

O que me interessa no meu trabalho é essa parte que não pode nunca ver.

É por isso que diz que trabalha com a essência da mulher e não com a mulher?

Trabalhar com a mulher..., parece que estou a trabalhar com a mulher enquanto objecto. Eu não objectifico a mulher.

Mas é muito fácil perceber a mulher enquanto objecto no seu universo. Mesmo que seja uma essência, e não uma mulher determinada.

É a mulher enquanto género, enquanto ser do sexo feminino. Está a referir-se às mulheres das pinturas brancas?

Não só. Nas imagens dos anos 70 que estão na exposição, não conta para nada a cara da mulher. Na sequência da mulher que corre à noite por entre a mata, vestida apenas com um casaco de peles, por acaso nem me lembro se a cara dela aparece ou não. O que conta é a força do animal que avança.

É o que interessa. Na pintura é diferente. Basta um nariz e passa a ser uma pessoa determinada, deixa de ser uma pessoa genérica. E isso é que me levou a... Não é como os americanos, que diziam que eu odiava as mulheres porque lhes cortava a cabeça!

Pois, fazem-lhe essas acusações de misoginia, a si que tem paixão declarada pela mulher. Mas nas pinturas brancas, a mulher aparece, não exactamente maltratada, mas com uma ameaça constante sobre si.

Interessa-se o instante entre o pairar da ameaça e a concretização da ameaça. Será que se concretiza?

A ameaça é perpetrada?

Nunca é perpetrada. Está sempre no limite.

Ainda em Serralves, passou uma obra sua, um filme pornográfico antigo onde nunca chega a haver uma explicitação da sexualidade: é cortado justamente no momento que antecede a concretização do movimento.

Exacto.

É sempre o lance o que lhe interessa. É aí que o desejo se consuma?

Nunca é consumado. Porque nunca fico satisfeito com o que faço. Há sempre qualquer coisa que falta. Como a faca que nunca entra na carne. E é isso que me impele a continuar: a incapacidade das coisas que faço. «Isto está bem, mas... (…)».


Sem comentários:

Enviar um comentário