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quarta-feira, 11 de maio de 2022

JULIÃO SARMENTO | «Marie» | NO JARDIM DA GULBENKIAN

 



«Criada originalmente para o pátio exterior da Sede da Delegação da Fundação em Paris, a obra, pertencente à coleção do CAM, é agora apresentada ao público pela primeira vez em Portugal.

Inspirando-se na arte clássica, Julião Sarmento recorreu às técnicas da escultura digital, em 3D, para produzir uma figura feminina em resina, com 1.80m de altura, que ostenta uma peça de vestuário em seda concebida pelo designer de moda Felipe Oliveira Baptista. A resina é um material capaz de resistir à ação do tempo, mas o tecido que a envolve, suscetível de uma natural degradação, será periodicamente renovado. (...)». Continue a ler.



terça-feira, 4 de maio de 2021

JULIÃO SARMENTO | morreu o artista visual que tinha nas mulheres fonte inesgotável de inspiração ...

 


(...)A carreira artística inicia-se em todo o seu fulgor na década de 1970, marcada por influências culturais anglo-saxónicas e onde utiliza linguagens diversificadas: pinturas, filmes, colagens de materiais heteróclitos, montagens fotográficas ou encenações de textos onde coloca em jogo vários elementos, desde a apropriação de imagens e citações literárias à fragmentação das formas, pondo-os ao serviço de um discurso plástico marcado pelo desejo e a pulsão erótica.

"Há um filme muito giro do Truffaut chamado 'L'homme qui aimait les femmes' e eu sou um pouco como ele: morreu atropelado por um Porsche quando ia a olhar para as pernas de uma mulher. Há piores maneiras de morrer", comentou em entrevista ao Jornal I. Era com alegorias destas que demonstrava o amor pelas mulheres, fonte inesgotável de inspiração.

Dizia: "Apaixono-me a toda a hora e a todo o instante. Faz parte da vida". E por isso mesmo casou três vezes. Assim na arte como na vida " O desequilíbrio é o que me interessa. Interessa-me muito mais o desequilíbrio do que as coisas estáveis. As coisas muito estáveis e certinhas não levam a lado nenhum a não ser a uma pasmaceira de café com leite. Interessam-me muito mais as coisas que estejam à beira do precipício", comentou numa entrevista ao programa "Fala com ela".

Na década de 1980, Julião Sarmento acompanha a mudança de paradigma, o que no seu caso determina o "regresso à pintura" figurativa e expressionista. É o período das "Pinturas brancas", em que predomina o desenho a grafite sobre fundo branco, onde os corpos quase se desmaterializam, reduzindo-se a linhas de contorno, e onde o vemos centrar-se na representação do feminino. A sua pintura torna-se num recetáculo de imagens e modos de pintar heterogéneos . O efeito produzido por essa sobreposição remete sobretudo para dois universos, o da literatura e o do cinema, eixos estruturantes da sua obra. Nesta época participa em duas edições sucessivas da Documenta de Kassel, que tiveram impacto na sua carreira internacional. (...)». Leia na integra.

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Veja sobre «as mulheres» em entrevista a Anabela Mota Ribeiro. De lá:


«(…)Implica conhecer o contorno da verdade, o contorno das pessoas que vemos?

O que me interessa no meu trabalho é essa parte que não pode nunca ver.

É por isso que diz que trabalha com a essência da mulher e não com a mulher?

Trabalhar com a mulher..., parece que estou a trabalhar com a mulher enquanto objecto. Eu não objectifico a mulher.

Mas é muito fácil perceber a mulher enquanto objecto no seu universo. Mesmo que seja uma essência, e não uma mulher determinada.

É a mulher enquanto género, enquanto ser do sexo feminino. Está a referir-se às mulheres das pinturas brancas?

Não só. Nas imagens dos anos 70 que estão na exposição, não conta para nada a cara da mulher. Na sequência da mulher que corre à noite por entre a mata, vestida apenas com um casaco de peles, por acaso nem me lembro se a cara dela aparece ou não. O que conta é a força do animal que avança.

É o que interessa. Na pintura é diferente. Basta um nariz e passa a ser uma pessoa determinada, deixa de ser uma pessoa genérica. E isso é que me levou a... Não é como os americanos, que diziam que eu odiava as mulheres porque lhes cortava a cabeça!

Pois, fazem-lhe essas acusações de misoginia, a si que tem paixão declarada pela mulher. Mas nas pinturas brancas, a mulher aparece, não exactamente maltratada, mas com uma ameaça constante sobre si.

Interessa-se o instante entre o pairar da ameaça e a concretização da ameaça. Será que se concretiza?

A ameaça é perpetrada?

Nunca é perpetrada. Está sempre no limite.

Ainda em Serralves, passou uma obra sua, um filme pornográfico antigo onde nunca chega a haver uma explicitação da sexualidade: é cortado justamente no momento que antecede a concretização do movimento.

Exacto.

É sempre o lance o que lhe interessa. É aí que o desejo se consuma?

Nunca é consumado. Porque nunca fico satisfeito com o que faço. Há sempre qualquer coisa que falta. Como a faca que nunca entra na carne. E é isso que me impele a continuar: a incapacidade das coisas que faço. «Isto está bem, mas... (…)».