«O título desta exposição de Ana Paganini e Inês Gonçalves, A Prova do Tempo, remete para aquilo que é uma das principais características da fotografia: cada imagem capta o agora, quando, em todas as ocasiões, aquilo que é fotografado sucede a um momento passado, que foi aquele que primeiro prendeu o olhar. A fotografia vive nestes dois tempos. Como poderão ver nas quatro séries que integram esta exposição de Ana Paganini e Inês Gonçalves, as duas fotógrafas fazem ver aquilo em que muitas vezes não se repara. “Não tenho uma filosofia, tenho uma câmara”, afirmava Saul Leiter, o grande fotógrafo norte-americano. Esta é uma frase que sintetiza aquilo que muitos fotógrafos têm dito: a máquina é apenas uma ferramenta do olhar, que fixa um momento. Na realidade, fotografar é reinterpretar aquilo que se vê.
As duas fotógrafas abordaram os mesmos temas: o mundo dos touros e das touradas e o ritual das procissões religiosas. Como podem ver nesta exposição da Lumina, fazem-no de forma diferente, cada uma com um olhar muito próprio. Inês Gonçalves fez estas fotografias ao longo dos anos 90 e Ana Paganini fotografou duas décadas depois, de 2018 para cá. Também esta diferença de tempos se relaciona com o próprio título da exposição, mostrando como, mesmo num significativo desfasamento temporal, há muitos pontos comuns. A este propósito gosto particularmente de uma ideia descrita por Susan Sontag: “a fotografia é testemunho”.
No mundo dos touros, Inês Gonçalves mostra em Toureiros sobretudo o que se passa antes da tourada, enquanto em Toiros de Morte Ana Paganini fixou o que se passa na corrida, dentro da praça de touros. São dois momentos do mesmo mundo e o segundo não vive sem o primeiro. Para além do contraste entre as imagens, as de Inês Gonçalves, predominantemente a preto e branco (na altura foram publicadas na revista Kapa), e as de Ana Paganini, predominantemente a cor, quase tudo poderia ter sido fotografado na mesma época, evidenciando o peso do tempo como guardião das tradições. Nas séries dedicadas às procissões existe também esta afinidade, que se sente na forma como a solenidade do ritual é vivida. Inês Gonçalves, que deu o nome Portugal a este trabalho, fotografou nos Açores, e a maior parte destas suas imagens são inéditas. Ana Paganini fotografou no Norte do país e, também, numa procissão realizada na Praia das Maçãs, registando aí um invulgar cenário de devoção. Esta sua série tem o título genérico Jesus’ Blood Never Failed On Me Yet e uma das fotografias ganhou um prémio e foi exposta na National Portrait Gallery, de Londres. Ana Paganini e Inês Gonçalves trabalharam, com duas décadas de diferença, temas semelhantes. Cada uma no seu tempo.
A Prova do Tempo é um nome particularmente adequado – as fotografias de Inês Gonçalves testemunham uma época e resistiram bem às quase três décadas que levam; e as fotografias de Ana Paganini levam-nos a compreender o que mudou para permitir a permanência das tradições. As duas fotógrafas acabam assim por, em tempos diferentes, estabelecer um diálogo entre o que observaram e retiveram. Afinal, o que é o tempo, senão a semente da memória? Miguel Esteves Cardoso tem, sobre o passar do tempo, uma frase que podia ser a legenda desta exposição: “Tudo é passado nas nossas vidas. O presente é apenas um poleiro com rodas, que o vento vai empurrando cada vez para mais longe.”
Manuel Falcão, Janeiro de 2026 - Saiba mais
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