segunda-feira, 20 de abril de 2026

ANA CLÁUDIA SANTOS |«A Morsa»

 



DESCRIÇÃO

«Uma rapariga é um estado de espírito. Sofia buscava as sensações como um girassol seguindo o astro-rei. Para educar uma rapariga, seriam talvez necessárias várias mães: uma para a calçar, outra para a vestir; uma para a alimentar, outra para lhe apontar o bem e o mal; uma para lhe enxugar as lágrimas, outra para lhe afiar as unhas; e uma sétima para a preparar para a guerra.»

De Ana Cláudia Santos pode dizer-se que é a mais clássica, a mais indisciplinada das escritoras portuguesas contemporâneas. Na linhagem de Lavores de Ana, este é um livro de histórias que dão voz a personagens em confronto consigo próprias, quase sempre com vidas em desajuste perante as memórias que guardam ou os desejos que atiçam. Histórias que traçam uma fronteira indefinível entre inocência e violência, em que a linguagem é parte do corpo habitado pelas personagens, e em que o corpo é voz de um tempo, de uma geografia, de inquietações públicas e privadas.

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« (...) Em epígrafe, um poema de Ungaretti põe lado a lado o lobo e a ovelha, o pequeno barco e o oceano libidinoso. E o livro faz o mesmo, logo no subtítulo, com “inocência” e “violência”, ou em duas histórias que merecem destaque. A narradora da primeira regressa ao lugar onde viveu em miúda, na Cruz de Pau, não em pessoa, mas através da navegação desimpedida e desfocada do Google Street View. Cartografando, a cuidadosa distância, um sítio, um tempo, um meio, a narradora desvenda a sua origem, “as casinholas tristes entre os prédios como ervas daninhas”, e rememora os traumas que atravessam “A Morsa”: a hierarquia classista, a comparação anatómica, a amizade tóxica, as “paixões de fabricação fantástica”. A segunda história fundamental aproxima-se de ficções de Virginia Woolf e Ingeborg Bachmann: na sequência de um luto profundo, uma mulher pede uma licença para recuperar, tratar da casa, cuidar de si, mas vê-se sujeita a uma domesticidade maligna, até que a presença exacerbada do espaço e dos móveis vai levá-la a um isolamento patológico, metida no gavetão da cama, num regresso à paz amniótica ou numa antecipação da paz dos cemitérios.

Os outros contos não se afastam dessa matriz, com raparigas que são empreendedoras tristes, que se iniciam sexualmente entre a excitação e a ambiguidade, frequentam colónias de férias com curiosidade desobediente, ou vivem amores insatisfatórios com jovens poetas e professores casados. A beleza física é motivo constante de atenção ou sofrimento (a pele, as pernas, o peito, o peso). E as relações humanas tendem à inveja ou à adoração, à lascívia ou à frustração, como numa Maria Judite de Carvalho nascida em democracia. (...)». Pedro Mexia no Expresso



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