«Uma rapariga é um estado de espírito. Sofia buscava as sensações como um girassol seguindo o astro-rei. Para educar uma rapariga, seriam talvez necessárias várias mães: uma para a calçar, outra para a vestir; uma para a alimentar, outra para lhe apontar o bem e o mal; uma para lhe enxugar as lágrimas, outra para lhe afiar as unhas; e uma sétima para a preparar para a guerra.»
De Ana Cláudia Santos pode dizer-se que é a mais clássica, a mais indisciplinada das escritoras portuguesas contemporâneas. Na linhagem de Lavores de Ana, este é um livro de histórias que dão voz a personagens em confronto consigo próprias, quase sempre com vidas em desajuste perante as memórias que guardam ou os desejos que atiçam. Histórias que traçam uma fronteira indefinível entre inocência e violência, em que a linguagem é parte do corpo habitado pelas personagens, e em que o corpo é voz de um tempo, de uma geografia, de inquietações públicas e privadas.
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Os outros contos não se afastam dessa matriz, com raparigas que são empreendedoras tristes, que se iniciam sexualmente entre a excitação e a ambiguidade, frequentam colónias de férias com curiosidade desobediente, ou vivem amores insatisfatórios com jovens poetas e professores casados. A beleza física é motivo constante de atenção ou sofrimento (a pele, as pernas, o peito, o peso). E as relações humanas tendem à inveja ou à adoração, à lascívia ou à frustração, como numa Maria Judite de Carvalho nascida em democracia. (...)». Pedro Mexia no Expresso

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