EXCERTO: «(...)De ser mulher e reclamar um espaço no mundo e uma voz. Não sente que há uma ameaça a isso? Eu acho que houve muito mais sinais de continuidade do que de rutura. De facto, as mulheres hoje… Bem, não é preciso descrever o que alcançaram, não é? Mas do ponto de vista da relação, da sua representação, houve uma grande continuidade.
Ou seja, nós continuamos a ser mais oprimidas do que aquilo que é o discurso oficial sobre nós próprias? Sem dúvida. E mesmo aquilo que nós ocupamos propriamente. Aliás, há dias estive num museu, em Berlim, e fiquei parva porque havia 50 homens célebres, num museu enorme. Eu tirei fotografias e fotografias disso. Não havia uma mulher. Num museu moderníssimo em Berlim. Uma única.
Ou seja, nós talvez tenhamos mais uma ilusão de conquista do que uma conquista real? Há conquistas reais. Basta ver a minha vida para eu dizer sim. A da minha filha. A sua vida. A vida das mulheres de hoje. Não se compara com aquilo que foi. Mas do ponto de vista dos arquétipos fundamentais, eu acho que é muito difícil. Porque há uma coisa importante, que nós não queremos dizer, mas que é a diferença biológica. Há uma diferença biológica, que as mulheres ainda não conseguiram converter em alguma coisa de profundamente apreciável. Numa vantagem. E acho que estamos a viver um momento de transição. É que nós ganhámos uma formação diferente, mas acontece uma coisa que eu acho extraordinária: é que para alcançarem o poder, as mulheres ainda usam exatamente os mesmos métodos do homem. Quer dizer, continuamos a subir por humilhação, por esforço de poder, por esmagamento do outro, por uma competição desenfreada, pelos vícios que conduzem ao poder.
É como se o mundo fosse todo desenhado à medida do homem e nós temos de nos encaixar?Nós encaixarmos aí. Ainda não subvertemos o discurso nem subvertemos, digamos, as regras. Então é difícil também, porque as regras não podem ser feitas de maneira a destronar o outro do seu sítio. Não pode ser. Porque, em princípio – e já posso explicar-lhe um pouco porque eu sinto isso… –, eu acho que qualquer mulher que é adulta, que é culta, que tem um pensamento livre e poético, não quer destronar o homem. Nós amamos o homem. Quer dizer, nós amamos o filho, amamos o amante, amamos o marido, nós não queremos destroná-lo. Mas, ao mesmo tempo, eles tendem a dar-nos um lugar. E nós não sabemos como fazer isso. Quer dizer, é uma luta de: se tu avanças, eu perco, se tu perdes, eu avanço. Na altura em que eu comecei a escrever, a publicar, nos anos 1980, as feministas de então achavam que nós não éramos feministas, que nós éramos feministas do futuro. Isto é, feministas que queríamos aquilo que hoje as feministas querem, o que hoje o terceiro ou o quarto feminismo quer, que é caminhar com os homens sem retirar aquilo que é a sua essência. Nós não queremos isso, nós queremos que eles se mantenham como são, mas queremos ocupar o nosso próprio espaço. Quero que nos respeitem por aquilo que nós somos, por aquilo que nós conseguimos. E se somos mais inteligentes e mais capazes, que nos digam que vocês são. Se não somos, que digam que vocês não são. Isto é alguma coisa que exige uma maturidade das sociedades, que neste momento está completamente abalada. Quer dizer, havia um caminho a percorrer, que neste momento, por tudo o que nós sabemos, está a ser abalado e que tem um aspeto de retrocesso extraordinário. Existe, de facto, o regresso à agressão no namoro, primitivo, quase animal, que é uma coisa extraordinária. E a maneira como as mulheres estão a autorrepresentar-se, neste momento, outra vez, as mulheres jovens, como sendo do domínio do caseiro, do domínio do maternal.
Há uma grande diferença em relação aos anos 80.Nos anos 80, havia a ideia da mulher profissional, da mulher que tinha de competir. Depois, tentou-se encontrar um equilíbrio entre isso e um lado mais feminino.
E, neste momento, é como se esse lado feminino impedisse o resto.Exatamente. Como se nós tivéssemos de voltar para dentro de casa. É um bocadinho… é terrível. E, sobretudo, a submissão. Não ter voz, submeter-se. Falar como o ventríloquo do outro. Há uma coisa que me parece que é muito importante e que é que as mulheres não assumam a agressividade que os homens têm no diálogo. E isso está a ser muito difícil. Elas, quando querem afirmar-se, afirmam-se por uma gritaria que as despromove. Não pela sensatez, não pelo saber, mas, muitas vezes, pela gritaria. Não é só a perspetiva pública, é dentro de casa. Dentro de casa, nos espaços de intimidade, volta-se outra vez a ver a mulher a gritar. A ter uma atitude histérica de gritaria para se afirmar.
Essa palavra histérica tem um peso político-histórico muito grande. Foi uma arma, muitas vezes, contra nós. Foi, e continua a ser. Mas é preciso perceber que a palavra histérico vem de histeros, que é útero. Mas é mental. Portanto, os homens também o têm. Também há homens histéricos. E as pessoas também não sabem, muitas vezes, o que é histeria. Pensam que a histeria é apenas a gritaria. Não, não é. Não é só isso. Quer dizer, quando há bocadinho eu falei da palavra histeria, falei no sentido corriqueiro. Agora, do outro ponto de vista, o que significa é que a pessoa tem uma incapacidade de viver o prazer em si própria. E, portanto, digamos, não é capaz de se realizar. Tem de ter uma imaginação fora de si para realizar um bem-estar da alma. (...)». Leia na integra.
Ou seja, nós talvez tenhamos mais uma ilusão de conquista do que uma conquista real? Há conquistas reais. Basta ver a minha vida para eu dizer sim. A da minha filha. A sua vida. A vida das mulheres de hoje. Não se compara com aquilo que foi. Mas do ponto de vista dos arquétipos fundamentais, eu acho que é muito difícil. Porque há uma coisa importante, que nós não queremos dizer, mas que é a diferença biológica. Há uma diferença biológica, que as mulheres ainda não conseguiram converter em alguma coisa de profundamente apreciável. Numa vantagem. E acho que estamos a viver um momento de transição. É que nós ganhámos uma formação diferente, mas acontece uma coisa que eu acho extraordinária: é que para alcançarem o poder, as mulheres ainda usam exatamente os mesmos métodos do homem. Quer dizer, continuamos a subir por humilhação, por esforço de poder, por esmagamento do outro, por uma competição desenfreada, pelos vícios que conduzem ao poder.
É como se o mundo fosse todo desenhado à medida do homem e nós temos de nos encaixar?Nós encaixarmos aí. Ainda não subvertemos o discurso nem subvertemos, digamos, as regras. Então é difícil também, porque as regras não podem ser feitas de maneira a destronar o outro do seu sítio. Não pode ser. Porque, em princípio – e já posso explicar-lhe um pouco porque eu sinto isso… –, eu acho que qualquer mulher que é adulta, que é culta, que tem um pensamento livre e poético, não quer destronar o homem. Nós amamos o homem. Quer dizer, nós amamos o filho, amamos o amante, amamos o marido, nós não queremos destroná-lo. Mas, ao mesmo tempo, eles tendem a dar-nos um lugar. E nós não sabemos como fazer isso. Quer dizer, é uma luta de: se tu avanças, eu perco, se tu perdes, eu avanço. Na altura em que eu comecei a escrever, a publicar, nos anos 1980, as feministas de então achavam que nós não éramos feministas, que nós éramos feministas do futuro. Isto é, feministas que queríamos aquilo que hoje as feministas querem, o que hoje o terceiro ou o quarto feminismo quer, que é caminhar com os homens sem retirar aquilo que é a sua essência. Nós não queremos isso, nós queremos que eles se mantenham como são, mas queremos ocupar o nosso próprio espaço. Quero que nos respeitem por aquilo que nós somos, por aquilo que nós conseguimos. E se somos mais inteligentes e mais capazes, que nos digam que vocês são. Se não somos, que digam que vocês não são. Isto é alguma coisa que exige uma maturidade das sociedades, que neste momento está completamente abalada. Quer dizer, havia um caminho a percorrer, que neste momento, por tudo o que nós sabemos, está a ser abalado e que tem um aspeto de retrocesso extraordinário. Existe, de facto, o regresso à agressão no namoro, primitivo, quase animal, que é uma coisa extraordinária. E a maneira como as mulheres estão a autorrepresentar-se, neste momento, outra vez, as mulheres jovens, como sendo do domínio do caseiro, do domínio do maternal.
Há uma grande diferença em relação aos anos 80.Nos anos 80, havia a ideia da mulher profissional, da mulher que tinha de competir. Depois, tentou-se encontrar um equilíbrio entre isso e um lado mais feminino.
E, neste momento, é como se esse lado feminino impedisse o resto.Exatamente. Como se nós tivéssemos de voltar para dentro de casa. É um bocadinho… é terrível. E, sobretudo, a submissão. Não ter voz, submeter-se. Falar como o ventríloquo do outro. Há uma coisa que me parece que é muito importante e que é que as mulheres não assumam a agressividade que os homens têm no diálogo. E isso está a ser muito difícil. Elas, quando querem afirmar-se, afirmam-se por uma gritaria que as despromove. Não pela sensatez, não pelo saber, mas, muitas vezes, pela gritaria. Não é só a perspetiva pública, é dentro de casa. Dentro de casa, nos espaços de intimidade, volta-se outra vez a ver a mulher a gritar. A ter uma atitude histérica de gritaria para se afirmar.
Essa palavra histérica tem um peso político-histórico muito grande. Foi uma arma, muitas vezes, contra nós. Foi, e continua a ser. Mas é preciso perceber que a palavra histérico vem de histeros, que é útero. Mas é mental. Portanto, os homens também o têm. Também há homens histéricos. E as pessoas também não sabem, muitas vezes, o que é histeria. Pensam que a histeria é apenas a gritaria. Não, não é. Não é só isso. Quer dizer, quando há bocadinho eu falei da palavra histeria, falei no sentido corriqueiro. Agora, do outro ponto de vista, o que significa é que a pessoa tem uma incapacidade de viver o prazer em si própria. E, portanto, digamos, não é capaz de se realizar. Tem de ter uma imaginação fora de si para realizar um bem-estar da alma. (...)». Leia na integra.


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