«algo sempre acontece
na árvore da linguagem
se cai uma sílaba nasce uma folha
se cai uma folha brota uma ave
um melro-preto para iluminar
de melodia o crepúsculo
e depois os frutos palavras doces
se cai um fruto cresce outra árvore
à revelia das regras da língua
em combustão vagarosa
gera a árvore da linguagem
um idioma contumaz e irrepetível
nem os antigos poetas obscuros
que molhavam a pena no mosto
saberiam grafar na tela de papir.»
Francisco Duarte Mangas
no seu facebook
a que chegámos levada
pelos sempre magnificos
SINAIS de Fernando Alves. Hoje:
Os frescos outonos de outrora
de lá:
«(...) Folheamos este verão, esta "luz de alumbramento", os poemas de Francisco Duarte Mangas guardados num livro de girassóis, suas magníficas gravuras que parecem seguir os nossos dedos ao virar das páginas onde cabe, à justa, a nossa mão espalmada. Cada brevíssimo poema pede a arte de olhar um campo de girassóis, ou a de olhar as nuvens, ou a de olhar os gatos, artes familiares dessa outra de saber olhar para a árvore.
Num dos poemas deste livro, Francisco Duarte Mangas chama ao girassol "submarino da terra" e "espião pacifista", tanto o esforço da planta "pela paixão da luz". E isso me conduz, sem o fio coerente com que "remotos camponeses (...) mediam o tempo" ao campo de girassóis que os ucranianos plantaram, já lá vão trinta anos, numa base militar desactivada, num gesto simbólico pelo desarmamento nuclear. (...)».
