sábado, 6 de abril de 2024
JOÃO PINA | «Tarrafal»
No dia em que João Pina abriu uma caixa antiga que guardava negativos, folhas de contacto, gravuras vintage, cartas e telegramas do Tarrafal, iniciou um diálogo epistolar no tempo com o seu avô Guilherme da Costa Carvalho, enviado em 1949 para o campo de concentração do regime fascista português em Cabo Verde, conhecido também como o campo da morte lenta.
Os pais de Guilherme, Luiz e Herculana, foram as únicas visitas familiares ao Tarrafal na sua fase «portuguesa», levando consigo uma providencial câmara fotográfica Rolleiflex para retratar e dar prova de vida de todos os presos políticos do campo, além de fotografar todas as sepulturas dos mortos.
É a estas imagens, os únicos registos visuais feitos à época no interior do campo de concentração, que regressa João Pina, fotógrafo documental, continuando o seu já vasto trabalho de cartografia da memória histórica e das violações dos direitos humanos em forma de livro. À história pessoal e ao arquivo familiar, Tarrafal junta ainda anos de investigação e de colaboração com ex presos políticos, historiadores e famílias cabo verdianas, constituindo se como um documento de referência para, nos 50 anos do 25 de Abril, lembrar as consequências do passado vivido e compreender os desafios que temos pela frente. Saiba mais.
Esta é uma imagem do fotógrafo João Pina. E faz parte de um livro que poderia ser amargo, com memórias de opressão. Mas não é, porque nele se declara o amor do autor à dignidade trazida por uma mãe e um pai a um filho preso. E aos outros prisioneiros políticos e às respetivas famílias. O filho no campo de concentração é o avô Guilherme que o fotógrafo não conheceu. No novo livro “Tarrafal”, a imagem enquadra-se num facto: “Vala e muralha construídas pelos presos políticos portugueses, obrigados a picar e a extrair pedras para a construção.”
O neto passou parte de uma noite no Tarrafal, para tentar perceber. E na página anterior espreitam as raízes de uma acácia-rubra, a formar um díptico fotográfico com esta imagem muralhada. Sob a árvore, os presos procuravam sombra. Nestas quase 300 páginas, conta-se como um neto foi conhecer o sítio onde esteve preso o avô, entre 1949 e 1951. A história do militante comunista Guilherme da Costa Carvalho daria um filme de ação, com cenas de fazer chorar pessoas duronas, no escuro do cinema. Os pais de Guilherme não eram do Partido Comunista Português. Sobrava dinheiro ao capitalista Luís Alves de Carvalho e à católica Herculana Jesus da Costa Dias Carvalho, quando o filho esteve preso no Tarrafal. Não se sabe bem como, e contra todas as regras, foram autorizados a visitá-lo. Viajaram duas vezes e fotografaram os presos. A mãe de Guilherme deixou flores nas campas dos prisioneiros mortos. O pai fotografou tudo, para mostrar às famílias. Sim, são fotografias fundamentais do séc. XX português.
Este Campo da Morte Lenta funcionou na colónia portuguesa de Cabo Verde. E pode ser visitado na ilha de Santiago, junto à povoação do Tarrafal. Foi criado em 1936, para aclimatar presos incómodos à nossa ditadura de inspiração fascista, liderada por António de Oliveira Salazar. A localização aliava a distância de Lisboa a um clima inóspito. Ninguém fugiu, entre torturas, doenças e fome. (...)».
quinta-feira, 4 de abril de 2024
SARAH BERNSTEIN |«Manual para a Obediência»
Uma obra-prima de uma das mais estimulantes novas vozes da literatura em língua inglesa, finalista do Prémio Booker 2023. Uma jovem mulher muda-se da sua terra natal para a remota região setentrional dos antepassados, para ser governanta do irmão, recentemente abandonado pela mulher. Pouco tempo depois da sua chegada, ocorrem vários acontecimentos inexplicáveis: histeria bovina coletiva, morte de uma ovelha e do respetivo cordeiro enquanto nascia, prenhez fantasma de uma cadela, penúria de batatas…
A mulher dá-se conta de que as suspeitas sentidas pelos habitantes em relação a estrangeiros em geral parecem dirigir-se para ela com alguma intensidade, e pressente uma ameaça crescente que jaz «logo ali a seguir ao portão do jardim». À medida que a hostilidade se avoluma, empurrando os limites da propriedade do irmão, o receio da mulher aumenta: caso os rumores que correm na vila se cristalizem numa forma mais definida, o que poderá acontecer, do que serão capazes os habitantes?
Com perspicácia e lirismo, Sarah Bernstein aborda as questões de cumplicidade e poder, desenraizamento e legado. Manual para a Obediência é um romance minucioso e perturbador, uma obra-prima que confirma Bernstein como uma das mais estimulantes novas vozes da literatura em língua inglesa. Saiba mais.
quarta-feira, 3 de abril de 2024
É SOBRE KIM GORDON | «A ironia, a raiva, o feminismo, a ansiedade do século XXI são temas-chave de um álbum que soa tão mas tão de acordo com o ar do tempo que nos esquecemos que esta mulher tem 70 anos»
«O QUE EU ANDO A OUVIR
“The Collective”, de Kim Gordon, é rock, é hip-hop, é trap, tem como base um pesado ambiente industrial. Pode não agradar a nenhum dos fãs destes géneros, pode soar como uma manta de retalhos bizarra a um ouvinte que esteja à espera de algo reminiscente dos Sonic Youth (só me aguentei 48 palavras até mencionar a ex-banda), mas também corre o sério risco de expandir os universos sonoros de todas estas tribos.
Confesso que de início fui atropelado por este rolo compressor em forma de álbum, mas assim que passou a estranheza inicial fui absorvendo as várias subtilezas e estou rendido. Gordon utiliza as guitarras para dar textura a batidas do produtor Justin Raisen – o método de trabalho é mais ou menos explicado nesta entrevista à Blitz –, usa e abusa da distorção, do feedback e até do auto-tune, mas no meio desta amálgama consegue dar às canções um cariz pop q.b. Dei mesmo por mim a repetir em voz baixa as frases que Kim Gordon vai murmurando.
“BYE BYE”, por exemplo, é mesmo um grande single (e vejam como soa inesperadamente bem ao vivo), cuja letra se baseia numa lista de itens para levar numa mala de viagem. A ironia, a raiva, o feminismo, a ansiedade do século XXI são temas-chave de um álbum que soa tão mas tão de acordo com o ar do tempo que nos esquecemos que esta mulher tem 70 anos. No TikTok, tornou-se viral este post em que uma jovem música diz que Gordon “curou” o receio que tinha de envelhecer. O “New York Times” diz que este disco é a coisa mais “cool” (“fixe” parece-me pouco como tradução) que Kim Gordon já fez. Amem ou odeiem, mas ouçam».
segunda-feira, 1 de abril de 2024
MARIA ANDRESEN |«Sombra»
Desconfia da beleza
porque ela hiberna sob a tua ânsia
porque ela hiberna sob a lua
porque ela é a esquiva»






