segunda-feira, 5 de agosto de 2024

STÊNIO GARDEL |«A Palavra que Resta»

 



SINOPSE
Uma carta guardada durante mais de cinquenta anos - e jamais lida. É essa a relíquia que Raimundo Gaudêncio traz consigo. Homem analfabeto que, na sua juventude, teve um amor secreto brutalmente interrompido, aos setenta e um anos resolve que ainda é tempo de aprender a ler e, talvez, decifrar essa ferida aberta do passado.
Nascido e criado na roça, Raimundo não frequentou a escola, pois cedo precisou de ajudar o pai na lida diária. Mas há muito que foi obrigado a deixar a família e a vida no sertão para trás. Desse tempo, Raimundo guarda apenas a carta que recebeu de Cícero, quando o amor escondido entre os dois foi descoberto. Cícero partiu sem deixar outra pista senão aquela carta que Raimundo não sabe ler - pelo menos até agora.
Com uma narrativa sensível e magnética, Stênio Gardel leva-nos pelo passado de Raimundo, permeado de conflitos familiares e da dor do ocultamento da sua sexualidade, mas também das novas formas de afeto e de vida que estabeleceu depois de ter fugido de casa.
Explorando o poder universal da palavra escrita e da linguagem, e o modo como elas afetam os nossos relacionamentos, A Palavra que Resta é um romance arrebatador sobre repressão, violência e vergonha, mas acima de tudo sobre a coragem de lhes resistir. Saiba mais.


domingo, 4 de agosto de 2024

NO PADRÃO DOS DESCOBRIMENTOS | «Álbuns de Família. Fotografias da diáspora africana na Grande Lisboa (1975-hoje)» | ATÉ 30 NOVEMBRO 2024

 



«O lugar, as pessoas, a exposição


Fazer esta exposição num lugar como o Padrão dos Descobrimentos torna-se ainda mais simbólico. Este monumento foi construído no auge do Estado Novo (1933-1974), a ditadura liderada por Salazar, para celebrar o Império do passado e com isso consolidar o Império de 1940. Hoje é um monumento histórico, um vestígio do passado colonial português, como tantos outros na cidade de Lisboa. Mas o Padrão é também – através das suas exposições e programação – um espaço de reflexão e crítica histórica. Com a exposição Álbuns de Família, é ainda um lugar para falar de um Portugal contemporâneo onde todos possam ter acesso a uma cidadania plena, feita de justiça social e racial.

Toda a exposição resulta de um processo colaborativo. Grande parte do que está exposto foi feito com a participação das pessoas que generosamente retiraram as fotografias das suas casas, dos seus álbuns, das suas gavetas, dos seus telemóveis para as partilharem connosco. A todas elas, um duplo agradecimento: pelo empréstimo temporário desses fragmentos materiais e visuais das suas vidas, e por compartilharem histórias e memórias narradas a partir das suas fotografias. 

A exposição cruza duas histórias – a da diáspora africana lisboeta com a da fotografia como autobiografia visual. Ao fazê-lo, procura demonstrar como a história é feita por todos nós e como todos fazemos parte da história. As histórias pessoais cruzam-se com a história coletiva, com a história política, com as histórias nacionais 
e internacionais. A exposição é também uma contranarrativa aos milhares de fotografias de pessoas negras em contexto colonial que existem em arquivos públicos e privados portugueses, imagens que nunca pertenceram aos próprios fotografados. A essa representação imposta – onde as pessoas surgem quase sempre em situações de desigualdade e raramente na sua individualidade, com nome e ape - lido – contrapomos, aqui, histórias de autorrepresentação contadas em discurso direto. Foi uma escolha limitada pelo espaço de exibição que não pretende caracterizar a riqueza e diversidade da vasta comunidade de origem africana que vive em Lisboa. Poderá esta exposição temporária ser o ponto de partida para a criação de um arquivo permanente, que acolha os legados históricos documentais da comunidade de origem africana em Portugal?». Filipa Lowndes Vicente | Inocência Mata,

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«Mitra, o "depósito" dos miseráveis»

 


«Nos armazéns de uma antiga fábrica de cortiça, em Lisboa, a ditadura prendeu quem queria ‘limpar’ das ruas — pedintes, vadios, aleijados, loucos e prostitutas. Era a cidade dos mal-amados. Rapavam-lhes o cabelo, metiam-lhes uma farda de cotim e um número ao pescoço. Controlados pela PSP, mais de 20 mil adultos e crianças foram ali escondidos do olhar público, muitos por várias décadas. Catarina Maria entrou há 70 anos. E ainda lá está

Por Joana Pereira Bastos e Raquel Moleiro (texto), Tiago Miranda (fotografias) e Rúben Tiago Pereira (Vídeo)

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Começa assim:

Naquele dia, os dois irmãos afastaram-se de casa mais do que o costume. A dois quilómetros, já na Graça, pararam num sítio onde a calçada perdera as pedras e a terra fazia covas perfeitas para jogar ao berlinde. Estavam a brincar quando um polícia os chamou. “Acompanhem-me à esquadra!” Carlos e Jorge, com 7 e 5 anos, obedeceram, a medo. Durante hora e meia interrogaram-nos sobre o que faziam. E eles sem nada de monta para dizer, só que escaparam de manhã à escola para brincar, que eram órfãos de mãe e que o pai estivador os esperava. O relato não convenceu o agente, que os confundiu com ladrões de laranjas, meninos pobres que matavam a fome nas quintas de Lisboa.

“Normalmente só andávamos onde toda a gente nos conhecia, mas nesse dia distanciámo-nos, até para lá do quartel de Sapadores. Ali era tudo barracas e os polícias pensaram que a gente também pertencia àquelas pessoas. Disseram-nos: ‘Vocês são uns malandros. Já vão ver para onde vão’ e meteram-nos numa carrinha com dois guardas”, recorda Carlos Silva. Foi há 68 anos mas nunca mais esqueceu o episódio e ainda menos o “pesadelo” onde os enfiaram a seguir.

A carrinha azul escuro, de transporte de presos, conhecida por ‘ramona’, parou no Beato, junto aos portões de ferro de uma antiga fábrica de cortiça, transformada em 1933 no Albergue de Mendicidade de Lisboa. Ao fundo, na fachada do edifício fronteiro, na extremidade de uma alameda ladeada a pavilhões de camaratas, lia-se, em maiúsculas, um nome que se tornou maldito: Mitra. (...)»

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 (na Revista do semanário Expresso desta semana)