Excertos do trabalho de Constança Babo
«(...)Reconhecida, sobretudo, pela forma como retrata e apresenta diferentes identidades, comunidades e estruturas de poder, Opie é a autora de uma vasta e impressionante obra. Nos últimos 35 anos, tem-se dedicado sobretudo à fotografia de retrato em diversos contextos e sob diferentes formatos, apresentando, sempre, uma estética cuidada, recorrentemente inspirada em movimentos artísticos da pintura clássica e visualidades próprias do tradicional estúdio de fotografia. Recorre, portanto, a uma linguagem visual institucional, isto é, de acordo com padrões formais e tradicionais de composição e figuração. No entanto, retrata aqueles que foram habitualmente excluídos desse género de representação, pretendendo dar-lhes visibilidade. Representa comunidades LGBTQ+, famílias queer, a subcultura leather (estética erótica, liderada por gays, das décadas 40 e 50, nos EUA), adolescentes e habitantes dos subúrbios pobres. Os sujeitos surgem centrados, imóveis, adequadamente iluminados, numa formalidade semelhante aos antigos retratos de nobreza e aristocracia, ou, nos dias de hoje, da realeza e de figuras políticas. Mas os corpos, as tatuagens e o vestuário revelam os seus contextos e enquadramentos sociais e culturais. Deste modo, a fotógrafa desafia, desvirtua e reconfigura o retrato, género primordial da prática fotográfica e um dos mais importantes da história da pintura. (...).
Assinale-se, porém, que a relação com a pintura barroca comporta também um caráter crítico, na medida em que Opie questiona as responsabilidades e as funções políticas e religiosas recorrentemente atribuídas à arte. Recorde-se que, durante séculos, a arte esteve ao serviço da igreja, foi utilizada para educar o povo e apropriada enquanto meio de propaganda e de poder, de partidos e movimentos políticos.
Na exposição, encontram-se outras referências do campo artístico, nomeadamente, da pintura renascentista. A principal e assinalada pela artista é Hans Holbein, pintor suíço-alemão do século XVI cuja tarefa fora retratar a corte de Henrique VIII. Como explica a fotógrafa, "a devastação causada pelo VIH/SIDA afetou a nossa comunidade” e “usei Holbein como uma força orientadora para documentar a minha comunidade e torná-la a minha própria família real". Opie regista aqueles que lhe são próximos, nos seus próprios espaços, como é exemplo o seu trabalho do início da década de 2000, realizado no bairro onde então vivia, em Los Angeles. Note-se, porém, que mesmo as cenas e os ambientes domésticos estão alinhados com a política de visibilidade de Opie, pretendendo remeter para a problemática da homofobia persistente na cultura americana durante a administração Bush.
Já os “Surfistas” (2003) de Malibu, retratados como se emergissem do oceano, absorvidos pela paisagem, com iluminação, tonalidade e composição próximas do Romantismo, representam a interseção entre identidades individuais e coletivas. Quanto às "Paisagens do Futebol Americano”, de 2007 a 2009, dão continuidade à problematização da estrutura social americana, sendo que os retratos dos jovens jogadores, do ensino secundário, denunciam as pressões dos estereótipos de masculinidade atlética. Outros motivos políticos desdobram-se ao longo do último corredor da exposição, onde diversas divisões e alianças são colocadas em confronto e em diálogo através de imagens do centenário do Jamboree dos Escuteiros na Virgínia, na Reserva Nacional Escoteira da Família Bechtel, do Festival de Música Feminina de Michigan, festival de música e cultura feminina, comícios do Tea Party e a tomada de posse do Presidente Barack Obama. Por fim, uma fotografia do Papa Francisco à janela, no Vaticano, enquadramento este que o insere no que Opie entende ser a “arquitetura do poder”. O título deste retrato do antigo chefe da Igreja Católica, “No Apology (June 5,2021)”, faz referência ao reconhecimento papal tardio das mortes de crianças das Primeiras Nações do Canadá sob a administração da igreja. (...)».
É A FORÇA DA ARTE!, NO CASO DA FOTOGRAFIA.



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