Confessemos: ao ouvirmos o discurso do Papa Francisco no Centro Cultural de Belèm, a nosso ver, tão bem estruturado, atual e belo, pensámos que ia incendiar a comunicação social. Mas tal como a jornalista São José Almeida diz no artigo acima foi um apagão. Tocou -nos em particular a referência aos nossos escritores/as e a formulação «Oficinas de Esperança», onde identifica (o que se veio a traduzir também por estaleiros) três - «Trabalhemos, pois, com criatividade para construirmos juntos! Imagino três estaleiros de construção da esperança onde podemos trabalhar todos unidos: o ambiente, o futuro, a fraternidade». Veja no site da Rádio REnascença o discurso e a análise da Vaticanista Aura Miguel.
E do artigo referido inicialmente estas passagens:
«(...)Há, contudo, um aspecto que me impressionou logo na quarta-feira, dia dedicado à visita de Estado e, por isso, normalmente, o dia com uma agenda mais política e menos religiosa. Estranhamente, na minha opinião, os jornalistas e comentadores desvalorizaram em absoluto o importantíssimo discurso político do Papa Francisco de desafio ao poder político da União Europeia e das democracias ocidentais em geral, mas também de contundente critica ao modelo socioeconómico em vigor e que resultou da revolução conservadora e neoliberal do último quarto do século passado. (...)
E, frontal, tratou de questionar: “Para onde navegas [Europa], se não ofereces percursos de paz, vias inovadoras para acabar com a guerra na Ucrânia e com tantos conflitos que ensanguentam o mundo?” Fez então a ponte para a defesa de uma sociedade em que se aposte na manutenção e alargamento do Estado Social, para além do desenvolvimento económico e tecnológico: “Que rota segues, Ocidente? A tua tecnologia, que marcou o progresso e globalizou o mundo, sozinha não basta; e muito menos bastam as armas mais sofisticadas, que não representam investimentos para o futuro, mas empobrecimento do verdadeiro capital humano que é a educação, a saúde, o Estado Social.” (...)».
Em pleno século XXI já não se trata simplesmente do fenómeno da exploração e da opressão, mas de algo novo: com a exclusão fica afetada na mesma raiz a pertença à sociedade em que se vive, pois já não se nela abaixo, na periferia ou sem poder, mas de fora. Ficai atentos a isto: com a exclusão é atingida, na própria raiz, a pertença à sociedade em que se vive, a partir do momento em que já não se está nos subúrbios, na periferia, ou sem poder, mas fora dela. É a cultura do descarte, que não só descarta, como obriga a viver no próprio descarte, deixando as pessoas invisíveis atrás do muro da indiferença ou do conforto.
Recordo a primeira vez que vi um bairro fechado. Não sabia que existiam. Foi em 1970. Tive que ir visitar alguns noviciados da Companhia [de Jesus], e logo, ao passar pela cidade, disseram-me: «Não, por aí não se pode ir, porque é um bairro fechado». No interior havia muros, e dentro estavam as casas, as ruas, mas fechadas: quer dizer, um bairro que vivia na indiferença. Impressionou-me muito ver isto. Mas depois isto aumentou, aumentou... e estava em todo o lado. E eu pergunto-te: o teu coração é como um bairro fechado? (...)».